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Estou grávida de um bebê com uma doença urológica. E agora?

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Por Dra Lorena Marçalo Oliveira*

A gestação é um momento muito especial no qual a mulher passa por transformações profundas em seu corpo e em sua psique. Nesse período são realizados diversos exames pré-natais para acompanhamento do bebê e da saúde materna. Com os avanços da medicina, há um arsenal de exames complementares que permitem fazer o diagnóstico de diversas patologias fetais, ou seja, conhecemos muito sobre os bebês antes mesmo deles nascerem. 

Para entender melhor as doenças urológicas no período pré-natal, esse artigo vai abordar brevemente sobre o desenvolvimento do aparelho urinário durante os meses de gestação. 

Os rins, cuja principal função é a filtração sanguínea, iniciam sua formação a partir do primeiro mês gestacional. Estruturas rudimentares formam-se na região sacral do feto e, entre a 6ª e a 9ª semana de vida, os rins em maturação ascendem para sua posição definitiva lombar esquerda e direita. Finalmente, o desenvolvimento renal é completo em torno da 32ª e 34ª semana de vida, enquanto que seu amadurecimento funcional continua no período pós-natal. 

Qualquer falha nesta ascensão ou subida renal pode ocasionar rins localizados em topografias não habituais, como os rins em região pélvica, mais baixos. Além disso, podem existir diferentes tipos de fusões e migrações entre os dois rins, que determinarão uma anatomia diferente. Por exemplo os “rins em ferradura”, que são unidos pelo polo inferior. 

A boa notícia é que não necessariamente estes rins funcionarão mal ou pior do que os rins normais. Muitas vezes os rins em posição anormal ou fundidos funcionam bastante bem. Todas as crianças com essas alterações, mesmo que assintomáticas, devem ser avaliadas por um especialista.

Os problemas urológicos mais comuns encontrados durante a gestação não são os rins mal posicionados ou fundidos, mas sim aqueles com alguma dilatação do trato urinário, condição também chamada de hidronefrose. Isso significa que a urina produzida pelo rim tem dificuldade para descer até a bexiga ou reflui pelo trato urinário.  

Essa alteração está presente em torno de 1 a 3% das gestações (1) e pode ocorrer em um único rim ou em ambos, em graus bastante variáveis. Habitualmente, as dilatações unilaterais, com o outro rim normal, costumam ser mais benignas do que as dilatações bilaterais. E as dilatações que aparecem mais tardiamente, por exemplo, no terceiro trimestre da gestação, costumam ser mais brandas do que aquelas que surgem no primeiro trimestre da gestação, quando os rins são mais imaturos.

O grande risco para esses rins em formação são a perda de função, decorrente de obstrução ou refluxo, além de maior risco infeccioso e maior risco de formação de cálculos. Quanto mais parada a urina fica no trato urinário, pior. 

Ao mesmo tempo à dilatação do trato urinário, o ultrassonografista fetal avalia todos os parâmetros morfológicos do bebê e o aspecto da bexiga, que pode estar cheia ou vazia, espessada ou fina. Além disso, avalia-se a quantidade de líquido amniótico, que envolve o bebê e é composto em grande parte pela urina fetal. O volume do líquido amniótico costuma ser um parâmetro importante na avaliação gestacional.

O tratamento para essas condições deve ser avaliado caso a caso e podem variar desde observação e controle evolutivo, até procedimentos cirúrgicos pré ou pós nascimento.

As condições mais comuns que ocasionam a dilatação do trato urinário são:

Estenose de junção uretero piélica (JUP): estreitamento do ureter em sua porção alta, proximal, junto à pelve renal. Mais comum anormalidade. 

Estenose de junção uretero vesical (megaureter): estreitamento do ureter em sua porção baixa, junto à bexiga. 

Doenças císticas renais: (podem ser confundidas com dilatação): cistos confluentes podem se assemelhar a uma dilatação. 

Duplicações ureterais e ureteroceles: rins com drenagem dupla podem ter uma drenagem ineficiente ou ainda refluxo urinário. Além disso podem existir pequenas sáculas na inserção do ureter, chamadas ureteroceles, que, em alguns casos, pioram a drenagem da urina.

– Refluxo vesico ureteral: condição na qual, durante o enchimento ou esvaziamento da bexiga, ocorre a subida da urina pelo ureter. O fluxo é contrário ao habitual, ao invés de descer, a urina sobe. 

– Válvula de uretra posterior: condição que acomete somente meninos. A uretra, canal que leva a urina da bexiga até sua saída pela ponta do pênis, tem um mecanismo valvar que impede o um bom fluxo urinário. O jato do xixi observado pela mãe costuma ser bastante fraco. A bexiga e a uretra são significativamente lesadas nos casos mais graves, e a dilatação do trato urinário alto (rim), é secundária à obstrução baixa.

As anormalidades genitais também podem ser detectadas no período antenatal, por exemplo uma genitália atípica ou uma hipospádia. No entanto, a maioria dos casos tem pouca interferência no desenvolvimento fetal e costumam ser tratados após o nascimento. Tais casos serão contemplados em um outro texto.

Finalmente, todos os bebês com anormalidades urológicas deverão ser acompanhados durante a gestação e após o nascimento, inclusive com um contato bastante próximo entre o urologista e o obstetra que acompanha a gestante.

Referências:

1 – Livera et al, 1989; Blyth et al, 1993; Gunn et al, 1995; Sairam et al, 2001

2 – Campbell-Walsh Urology 10th Edition. Chapter 111-114.

*Dra Lorena Marçalo Oliveira é médica urologista graduada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), especialista em Cirurgia Urológica e Uropediatria

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